quinta-feira, 11 de agosto de 2016

DISCRIMINAÇÃO RACIAL NOS PROCESSOS DE SELEÇÃO

O presente trabalho foi elaborado a partir da disciplina Seminário Temático de Integração III.
A proposta foi apresentar a existência do racismo nos processos de recrutamento e seleção, sendo assim, foi realizado um levantamento teórico e exposto a vivência dos alunos na área de Recursos Humanos, em específico em consultorias de RH. Inicialmente, iremos apresentar definições para que melhor possamos caminhar no tema abordado.
Preconceito segundo definição do dicionário Aurélio é “Manifestação hostil ou desprezo contra indivíduos ou povos de outras raças”. (FERREIRA, 1999, p. 567).
Já Racismo segundo o dicionário Aurélio é definido como “Teoria que afirma a superioridade de certas raças humanas sobre as demais. Caracteres físicos, morais e intelectuais que distinguem determinada raça. Ação ou qualidade de indivíduo racista.  Apego à raça“. (FERREIRA, 1999, p. 602).
Segundo Santos et al (2009): As etapas do processo de recrutamento e seleção têm como objetivo identificar nos candidatos as competências necessárias para assumir o cargo em aberto e diminuir ao máximo os riscos da contratação, ou seja, os riscos do candidato não se ajustar ao cargo e à cultura da empresa. (SANTOS, 2009, p.40)
Para Gil (2001), recrutamento pode ser entendido como um processo que visa atrair candidatos potencialmente qualificados e capazes de ocupar cargos dentro da organização. O processo de seleção consiste em comparar esses candidatos, identificando suas características pessoais e habilidades e até mesmo seu comportamento futuro no cargo, através de diversos procedimentos ou métodos de seleção.
Segundo Assunção (2001), o Brasil é considerado o segundo maior país em quantidade de negros de todo o mundo, isto é, o maior país em quantidade de negros fora da África, no qual a Nigéria ocupa o primeiro lugar. (ASSUNÇÃO, 2001. Pag.2).
Rosenfeld citado por Assunção afirma que: "ideologicamente, o preconceito contra os negros no Brasil é quase sempre totalmente negado, e o brasileiro se gaba com orgulho de sua falta de preconceito". (ROSENFELD apud  ASSUNÇÃO, 2001. p 2).
O racismo é considerado crime no Brasil de acordo com a Lei Federal de nº 7716/89 do Congresso Nacional (1989), mesmo assim o racismo ainda existe e pode ser encontrado nos processos de recrutamento e seleção.
De acordo com Assunção (2001) algumas instituições até empregam certos afrodescendentes, desde que eles permitam se despir de sua identificação com grupos negros.
 Assunção (2001) Como herança da nossa escravidão a maioria dos negros no Brasil, desempenham atividades de menor prestígio social, como, serviços domésticos, pedreiros, lixeiros, telemarketing entre outros. Os trabalhos de atendimento ao cliente, como vendas ou cargos no banco, são direcionados para pessoas “brancas”. De acordo com Assunção, as instituições que abrem “exceção” para contratação de negros, exigem que os mesmos mudem as suas características físicas, como alisar o cabelo.
 Mesmo que velado o preconceito no Brasil existe e isso reflete nos processos seletivos.
“Muitas vezes as empresas não aceitam negros porque o cliente não gosta de ser atendimento por um negro. Em lojas de roupas de grife é muito difícil ver um vendedor negro, se tiver algum funcionário negro geralmente é a faxineira. Essas exigências são passadas para o psicólogo que faz o recrutamento e seleção e isso causa desconforto no mesmo”. (X – Graduando em psicologia pela PUC Minas)

O que por determinação da Lei nº 9.029 de 13 de Abril de 1995, Artigo 1:
Fica proibida a adoção de qualquer prática discriminatória e limitativa para efeito de acesso a relação de emprego, ou sua manutenção, por motivo de sexo, origem, raça, cor, estado civil, situação familiar ou idade, ressalvadas, neste caso, as hipóteses de proteção ao menor previstas no inciso XXXIII do art. 7º da Constituição Federal. (BRASIL, 1995).

            No que diz respeito ao processo de seleção, x retrata o desafio ético vivenciado:
“O psicólogo se vê em um empecilho ético. Não pode contratar a candidata, pois ela é negra, e também não pode dizer que sua eliminação no processo, se dá devido sua etnia. Quando o psicólogo já recebe o “perfil” da vaga pronto, ele não tem muito que fazer, na maioria das vezes não há flexibilidade nesse perfil e por mais que o psicólogo tente não há conversa. O psicólogo pode ignorar e mandar candidatos “fora” do perfil que a empresa deseja, porém o gerente não irá fechar a vaga e isso pode trazer problemas para o psicólogo. Entra outro empecilho fazer o processo de acordo com a ética ou de acordo com as normas da empresa? Quando o psicólogo decide não acatar as normas de recrutamento e seleção da empresa ele pode acabar desempregado.” (X – Graduando em psicologia pela PUC Minas).
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[1] Para preservar o relato e as instituições que exercem suas atividades, os nomes verdadeiros foram substituídos por X no trabalho.
Segundo Renato Ladeia Oliveira citado por Sales (2012) através de histórias de vida de profissionais de recursos humanos que atuavam com recrutamento e seleção. Diz o autor:
“O processo de seleção dos empregados tem uma importância primordial na investigação do racismo nas organizações, pois é o primeiro contato com a empresa, podendo resultar numa experiência positiva ou negativa, na contratação ou não” (OLIVEIRA apud SALES, 2012, p. 8).

Podemos concluir que a psicologia pode contribuir com um trabalho focado não somente no recrutamento e seleção, mas apresentar uma postura mais rígida quanto a estes acontecimentos. Entendemos que não se trata de um trabalho de inclusão, mas de um combate a um crime previsto por lei.
Devemos entender que é um desafio à forma de operacionalizar a seleção. E que a raça não interfere no funcionamento laboral e que a discriminação leva a exclusão do mérito e gera injustiça contra os mais capazes.

 REFERÊNCIAS

ASSUNÇÃO. J.P Amaral. Mercado de Trabalho Branco! Racismo? Na Virada do Século XX!? Disponível em: <> www.naea.ufpa.br/pdf_tcc.php?id=72 <> Acesso em 27/08/2014.

BRASIL. Lei nº 9.029, de 13 de abril de 1995. Presidência da República; Casa Civil; Subchefia para Assuntos Jurídicos. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9029.htm> Acesso em 19/08/2014.

BRASIL. Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989. Presidência da República; Casa Civil; Subchefia de Assuntos Jurídicos. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l7716.htm> Acesso em 19/08/2014.

FERREIRA, A. B. H. Aurélio século XXI: o dicionário da Língua Portuguesa. 3. ed. rev. e ampl. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.

GIL, Antônio Carlos. gestão de pessoas: enfoque nos papeis profissionais. São paulo: Atlas, 2001.


SANTOS, Eunice Sabino et al. O papel do psicólogo na captação e no desenvolvimento das pessoas no setor de vendas. 2009. f. 54. Monografia (Graduação em Psicologia) – Curso de graduação em Psicologia. UNIVALE. Universidade Vale do Rio Doce, Governador Valadares.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

PSICODINÂMICA DO TRABALHO: ANÁLISE DA PROFISSÃO - TAXISTA

Milene Maria
Priscila Suelen
Rafael Nascimento

O presente trabalho  busca articular a prática dos taxistas da cidade de Belo Horizonte com a Clínica Psicodinâmica do Trabalho. Realçaremos aqui os processos de trabalho e os processos de subjetividade, saúde/doença desses trabalhadores.

O objetivo do presente trabalho foi articular os conhecimentos teóricos da Psicodinâmica do Trabalho com os dados coletados nas entrevistas. A escolha da categoria taxista se justifica por ser algo tão próximo do nosso cotidiano que nas correrias da vida nos possibilita um transporte mais rápido e pelo fato de ser uma profissão que não conhecemos os processos e os riscos envolvidos nessa atividade de trabalho, entendendo que os profissionais dessa categoria exercem um importante papel nas relações sociais.

METODOLOGIA

Para conhecer melhor o cotidiano destes trabalhadores utilizamos como instrumento para a coleta dos dados, entrevistas e analisamos os dados de acordo com levantamento bibliográfico. 
As entrevistas foram realizadas no ambiente de trabalho dos taxistas. Em alguns momentos as entrevistas foram interrompidas devido aos chamados para as corridas. As entrevistas ocorreram de forma respeitosa, na qual nos colocamos como aprendiz do trabalho real relatado nas entrevistas.

PSICODINÂMICA DO TRABALHO 

A psicodinâmica do trabalho tem como precursor Christophe Dejours e este  defende que “o trabalho representa a oportunidade mais corriqueira de se estabelecer uma relação com o real e o mundo” sua teoria acerca da Psicodinâmica foi desenvolvida na década de 1980 e encontra os seus principais fundamentos na psicanálise, na ergonomia e na sociologia do trabalho. (BENDASSOLLI and. SOBOLL, 2010).
Na Clínica Psicodinâmica do Trabalho, há que se considerar as relações individuais e coletivas e a questão do reconhecimento no mundo do trabalho. Essa teoria traz que o componente humano e subjetivo tem foco primordial nessa análise.
O conceito de trabalho é entendido como um conjunto atividades coordenadas, que ao serem desenvolvidas alcançam de acordo com o prescrito pela organização do trabalho para o objetivo de se produzir um bem ou um serviço.
A dimensão individual do trabalho é retratada por Mendes e Araujo (2011) ao dizerem o trabalho se engaja no corpo e no afeto provocando o conflito com o real.
A Dimensão Coletiva se caracteriza pelo trabalho ser constituído por regras que organizam um viver juntos, e um modo de cooperação, portanto trabalhar significa viver coletivamente, numa relação entre o sujeito que trabalha, com alguém e para alguém. GERNET E DEJOURS citado por BENDASSOLLIF (2009).
A análise dos dados tem como objetivo propor um estudo comparativo entre o trabalho prescrito de acordo com o CBO e o trabalho real relatado nas entrevistas, articulando os dados coletados com a teoria da psicodinâmica do trabalho.
Em busca de uma melhor compreensão foi feita a  organização das categorizações entre falas  e os principais conceitos da psicodinâmica.  
O desafio da psicodinâmica do trabalho conforme aponta Dejours (1994, p.19) é superar a distância que existe entre o trabalho prescrito e o trabalho real.

“(...) Trabalhar na função de taxista é muito bom porque consigo tirar um dinheiro bom no finalzinho do mês, se eu conseguir controlar, no entanto é muita correria e como fico mais próximo do centro, é passageiro toda hora, o que faz meu almoço e café ser muito corrido e pouco saudável.  Não consigo parar pra comer direito, tem vez que como dentro do carro.”
“(...) As horas que consigo comer é quando paro no ponto porque normalmente de tarde já estou indo em direção à minha casa, então paro no meio do caminho e compro um lanche na padaria. Pra ir ao banheiro é ainda mais difícil e eu conto com a cooperação dos colegas dos bares e restaurantes que já me conhecem devido ao tempo de táxi.”

Nas falas destacadas é possível identificar que: a  correria do dia-a-dia; atender determinado chamado ou não; horários de almoço, lanche e ir ao banheiro. Vai da perspectiva do sujeito e da adaptação dele ao seu trabalho prescrito para economia do tempo de trabalho em determinado ambiente.
A psicodinâmica do trabalho irá avaliar como a falta de reconhecimento do trabalho, tanto socialmente quanto do cliente, o que poderá trazer desmotivação o que acarretará a falta de sentido no trabalho.
“(...) Quando tem alguma batida eu procuro manter a calma. O problema é quando tem passageiro no carro e ele está com pressa, ai tenho que aguentar ele reclamando, além da batida.”
Conforme aponta Dejours (2001) a engenhosidade é a inteligência prática usada em situações de trabalho:
“(...) Quando tem alguma batida eu procuro manter a calma... Dirijo com muito cuidado.  Quando comecei no táxi, esses episódios aconteciam com mais frequência, mas acho que era porque era novo e achava que sabia tudo, então não tinha tanta prudência pra dirigir como tenho hoje.”
“(...) Quando trabalho durante a noite ou de madrugada algumas vezes não para pegar passageiros... Se eu não for com a cara da pessoa eu vou embora, e acelero o carro.”
“(...) Pra ir ao banheiro é ainda mais difícil e eu conto com a cooperação dos colegas dos bares e restaurantes que já me conhecem devido ao tempo de táxi.”
Percebemos na fala dos entrevistados, que os imprevistos no trabalho acabam afetando diretamente o processo e dinâmica de seu trabalho. Que os imprevistos são constantes em seu dia-dia e há um grande ajuste que é feito pelos taxistas que mobilizam além do seu corpo, também sua inteligência; Convoca todo o corpo criando assim o que Dejours (2004) define como engenhosidade.
“(...) Tive uma experiência muito tensa, mas muito bacana. Recebi um chamado pra atender uma passageira perto da minha casa, foi um dia de manhã, minha segunda corrida do dia. Essa passageira estava grávida e já com dores do parto. Peguei ela e o marido e os dois estavam muito nervosos. Naquele momento, com aquela situação tentei me manter o mais calmo possível pra não piorar a situação. Ela estava com muita dor e sofrendo muito, mas eu fui tentando acalmá-la, conversando e tentando aliviar o sofrimento dela dizendo que o transito aquele horário era bom e que já já a gente chegaria ao hospital e que ia dar tudo certo. Mas ao mesmo tempo que eu tentava acalmá-la, eu estava numa luta danada contra minha tensão, porque imagina, eu estava responsável por aquilo ali, se eu deixasse algum acidente acontecer por causa do meu nervosismo, eu ia deixa-la ainda mais nervosa e só Deus sabe o que ia acontecer. Deu tudo certo no final (risos). De um lado foi muito bom saber do que sou capaz, mas por outro lado a insegurança estava ali a todo momento e o medo de acontecer alguma coisa, foi a primeira e única vez que isso aconteceu.”

Na dinâmica do trabalho é muito importante que se possa interagir e aprender a lidar com os colegas de trabalho para que se possa realizar da melhor forma possível e ao mesmo tempo chegar aos objetivos esperados.
“(...) Como trabalhamos com rádio a comunicação é melhor e como já trabalho há 20 anos nessa profissão e muitos colegas também, somos muito parceiros. Então várias situações como acidentes, carro estragado, estamos sempre nos comunicando e pedindo ajuda um ao outro. Além do rádio, ainda temos os telefones uns dos outros, mais um meio de comunicação e todos estão sempre prontos a ajudar, tirando alguns, que começam agora e não sabem o que companheirismo significa. Eles acham que como são novos, não precisam dos outros pra trabalhar. Na realidade nós precisamos uns dos outros sempre.”
“(...)Uma vez uma passageira entrou no carro e estava passando muito mal, precisava ir fazer um exame e filho não pode acompanha-la ao médico, e isso a deixou triste a mesma entrou no táxi chorando muito e tentei acalma-la, fui e foi conversando com a senhora até chegar no seu destino. E a senhora me agradeceu muito.
Os relatos nos remetem ao que é trazido por Dejours citado por Bendassolli (2010) sobre o reconhecimento, e que este vem de duas formas de julgamento, o da estética final do trabalho, a qualidade do trabalho e do reconhecimento pelo outro, da utilidade técnica, social e econômica do trabalho realizado que é formulada pela organização, clientes e mesmo colegas de trabalho.
A partir da articulação da concepção teórica referente a psicodinâmica do trabalho e as entrevistas com os taxistas, foi possível entender que o sujeito é dividido por conflitos intrapsíquicos, mas que também não pode se constituir fora da relação com o outro.
Este trabalho também nos possibilitou entender e identificar que o trabalho constitui o sujeito, ou seja, é o processo central nos processos de subjetivação, entendendo que o trabalho prescrito e o trabalho real perpassam pela singularidade e formas de fazer que seja própria do sujeito.

REFERÊNCIAS

DEJOURS, Christophe. Subjetividade, trabalho e ação. Revista Produção, v 14, n. 3, p. 027-034. Set/Dez. 2004.

Bendassolli e Soboli. Introdução às clínicas do trab. Aportes teórico, pressupostos e aplicações. Pp: 61 – 83. In: BENDASSOLLI, Pedro e SOBOLL, Lis Andrea. Clínicas do Trabalho: novas perspectivas para compreensão do trabalho: Novas Perspectivas para compreensão do trabalho na atualidade. São Paulo: Atlas, 2011.


quinta-feira, 31 de julho de 2014

O Trabalho das Agentes Comunitárias de Saúde, do Centro de Saúde Lajedo - Belo Horizonte / MG


                                                                                          Ione Alves de Aguilar[1]
                                                                               Rafael Nascimento de Castro[2]
                                                                                          Jardel Sander da Silva[3]


Resumo: Pretende-se apresentar e refletir sobre o trabalho dos Agentes Comunitários de Saúde, em uma comunidade localizada na região do centro de saúde Lajedo, em Belo Horizonte, Minas Gerais. Foram realizados seis encontros, sendo que nos primeiros encontros acompanhamos a rotina da ACS, nos atendimentos as famílias e, nos encontros seguintes foram propostas discussões sobre as funções das agentes comunitárias de saúde, a saúde das mesmas, a estrutura e as condições de trabalho e os serviços oferecidos à comunidade. Verificamos que as condições de trabalho são precárias, sem estrutura material, como sala e computadores não disponíveis para desenvolver os relatórios e arquivar os mesmos. Faltam condições materiais e psíquicas adequadas para o desenvolvimento das atividades, como uniformes, apoio psicológico e protetor solar para as agentes de rua.


Palavras-chave: Agente comunitária de Saúde, PSF, Políticas públicas.


Introdução

     O presente artigo tem por objetivo refletir sobre o trabalho dos Agentes comunitários de saúde (ACS), as condições de trabalho, a estrutura dos serviços e, ações desenvolvidas pela equipe do PSF, programa da saúde da família. A equipe de saúde é composta por um médico, um enfermeiro, um auxiliar de enfermagem, um fisioterapeuta, um terapeuta ocupacional e, quatro agentes comunitários de saúde (ACS).
          Cada equipe tem profissionais que são responsáveis pelas funções atribuídas de acordo com suas especialidades. Trabalham para desenvolver ações referentes à promoção, prevenção e reabilitação da saúde das pessoas. Melhorando a qualidade de vida e reduzindo a procura por atendimento de urgências e em hospitais.
           Os ACS realizam e atualizam os cadastramentos  das famílias, fazem o mapeamento da área de atuação, marcação de consultas e exames, Prevenção e Promoção da saúde;  visitas domiciliares, entre outros. Busca identificar situações de risco individual e coletivo, encaminhar as pessoas aos serviços de saúde sempre que necessário,  orientar as famílias de acordo com as instruções da equipe de saúde, acompanham a situação de saúde das pessoas a fim de previnir doenças. Acolhe a comunidade ouvindo as reclamações e reivindicações sobre qualidade do atendimento do SUS.  Os principais alvos de atenção são as gestantes, crianças até 5 anos, idosos e portadores de doenças crônicas.   

   
Visitas Domiciliares

               Acompanhamos o trabalho da ACS, que ocorreu em uma quinta feira do mês de Setembro. Nesse dia realizamos seis visitas domiciliares, fomos bem recebidas em todas as famílias, na primeira residência encontramos a sra N. e, fomos apresentados pela ACS como estagiários de psicologia. A conversa foi direcionada para os encaminhamentos e cuidados com o bebê que havia nascidos há um mês. A ACS orientou sobre as vacinas e o retorno ao médico. A mãe da criança falou das dificuldades que está passando em levar o seu pai ao médico e ter que levar os filhos junto, pois não tem com quem deixar. 
              Na segunda residência fomos recebidos pela dona da residencia, a srª S. e, a ACS fez algumas recomendações sobre os exames realizados e procurou saber informações sobre a saúde dos demais membros da família. Na terceira residência a sra M. nos recebeu e comentou sobre as vacinas que sua criança de quatro meses recebe e do seu retorno ao médico.
              Na quarta residência a ACS realizou o cadastramento de dois membros da família que estavam pendente.  Na Quinta visita a sra B. contou sobre seu filho que havia saído e não retornou, seu filho é usuário de drogas e muitas vezes fica fora de casa por alguns dias, mas sempre retorna. Nesta residência também mora uma outra filha que deu a luz recentemente e estava dormindo, segundo a avó da criança, os exames e vacinas estão em dia, mãe e filho estão se alimentando corretamente. Na sexta residencia a sra V. solicitou para a ACS o cadastramento do filho da sua cunhada que veio morar com ela, e a ACS entregou um agendamento de um retorno médico para a V. que está previsto para Novembro.
              Durante o percusso que caminhamos junto a ACS, fizemos alguns questionamentos, como era trabalhar como agente comunitario de saúde, quais eram as demandas da comunidade e quais as principais dificuldades enfrentadas, a mesma respondeu que atua há onze anos nessa profissão e gosta do que faz. Ela é moradora do bairro onde trabalha e diz que a equipe é tranquila,  tem conversas e faz reflexões dos casos e situações vivenciadas com as companheiras  sobre os fatos que ocorrem na região em que atua.
               As dificuldades são relacionadas às consultas especializadas que é difícil atender a demanda da comunidade, pois tem um número limitado de vagas para muitos pacientes que fica na fila espera. O ortopedista é uma especialidade muito procurada,  e também reclama da falta de treinamento e orientações para lidar com as questões formais, no preenchimento de documentos como o consolidado e que não tem um consenso da equipe na maneira correta de preencher o mesmo. 


         Discussões acerca do Trabalho realizado pelas agentes comunitárias de saúde

             Durante as discussões, solicitamos às ACSs, que falassem sobre as demandas  do atendimento a comunidade e da estrutura do trabalho. O que dificulta e os pontos positivos do processo de atendimento às famílias e às necessidades da equipe. No primeiro momento elas mencionaram sobre a dificuldade de acesso a alguns usuários que são acompanhados nas visitas domiciliares, os horários não coincidem com os horários das famílias a serem atendidas. Citaram famílias que não querem ser atendidas e, quando elas chegam para realizar o acolhimento não são recebidas, são ignoradas. Existe também famílias que não entendem o horário de trabalho das agentes comunitário de saúde e, vam ate as casas das mesmas a noite, nos finais de semana e, nos feriados para cobrarem exames, medicamentos, entre outros.  
              As ACSs comentaram sobre as escadarias e os aclives do bairro, o sol intenso e o peso que carregam nas mochilas com papelada para preencher. Os cachorros soltos nas ruas também causa incomodo e, existe a necessidade da maioria das pessoas em falar de seus sofrimentos e, algumas famílias reclamam do atendimento, principalmente da demora em consultas especializadas, como ortopedia, fonoaudiólogo, entre outros.
            Foi comentado pelas agentes de saúde os pontos positivos do trabalho, que é desenvolver ações de promoção à saúde, prevenção e prestação de cuidados específicos à familia. Possibilita conhecer melhor as pessoas, sentem gratificadas em verem as pessoas serem atendidas em suas demandas. Proporciona amadurecimento, tolerância emocional e satisfação no trabalho em que podem contribuir para o bem estar dos usuários. Segundo BRASIL (2009), “o ACS tem um papel importante no acolhimento, pois é um membro da equipe que faz parte da comunidade, o que ajuda a criar confiança e vínculo, facilitando o contato direto com a equipe”.
          O conhecimento que as ACSs adquirem durante o trabalho, nos cursos e palestra que participam, segundo as mesmas são importantes para estarem bem informadas e saber orientar os usuários. Elas dizem que aprendem muito com os próprios usuários nos contatos que estabelecem relações de confiança e, reconhecimento do trabalho que desempenham.
          A maioria das agentes comunitária de saúde tem mais de dez anos de profissão e, apesar de sentirem agradecidas em ter um emprego, reclamam da desvalorização salarial e da estrutura do local de trabalho. Muitas delas querem aposentar no emprego e apenas uma diz sentir vontade em mudar de emprego e, faz planejamento para cursar fonoaudiologia, informa já ter prestado vestibular e aguarda resultado para iniciar o curso.          


Considerações Finais

        Podemos verificar que a proposta do PSF (Programa da Saúde da Família), é uma organização do governo que visa o atendimento aos usuários do SUS (Sistema Único de Saúde). Segundo o artigo 196 da constituição federal “A saúde é direito de todos e dever do estado, garantindo mediante políticas públicas e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação”. Oferecendo orientação às pessoas que demandam tratamento e prevenção de doenças e, sobre os fatores de risco que podem afetar a saúde das mesmas. 
        O programa tem objetividade e boa elaboração teórica, mas na prática ainda demanda construção da estrutura física e no processo de formação e orientação dos profissionais envolvidos, assim como os recursos materiais que são precários. É preciso ampliar o atendimento às consultas especializadas, e rever a proposta inicial, assim como realizar encontros para discussão crítica dos casos e trocas de experiências entre os profissionais e suas equipes.
       As queixas trazidas pelas as agentes comunitárias de saúde, como a desorganização e descaso em relação a material de trabalho, peso das bolsas, doenças causadas em contato com casas em situação precárias, como mofo, mau cheiro que causa infecções, mal estar, dor no joelho, nas costas, infecção pulmonar e outros, precisam ser analisadas para propor mudanças que vise à melhora de lidar com a saúde das mesmas e da comunidade como um todo.


ANEXO:

       Técnica: Inversão de papéis

Proposto as ACS a se dividirem e levantar um paciente que lhe dão maior trabalho, que possui dificuldade de acesso a residente, receptividade do morador e outras pertinentes.

·         Levantamento Equipe II

      Casal de moradores, ambos com problemas de saúde mental, são agressivos.
      ACS Cleide – relata medo de entrar na casa desse casal, sempre faz seu trabalho somente no portão da residência.
      Local com razoável acesso, somente em dias de chuva que a gera grande dificuldade. Casal possui filho de oito anos de idade que mora com os rios em outro bairro. Morador sempre atende as ACS, porem não falam coisa com coisa. Quando marca a ida deste ao Centro de Saúde lajedo, não vão.
      Casal faz tratamento no Cersam da Pampulha. Fazem uso do medicamento – Haldol e Diazepam. O Homem acha que é cuidador da mulher, toma remédio quando quer, faz uso de drogas (maconha) e agride com frequência sua esposa. A paciente é oprimida, o esposo que responde pela mesma, e vive sendo dopada pelo esposo. O Homem agride os vizinhos que chamam com frequência a polícia. ACS relata que paciente fica convidando-a para entrar, mas fica colocando a língua para fora, passando nos lábios. ACS entende isso como uma tentativa de sedução, por isso tem medo.

   Inversão dos papeis

             ACS relatam que os moradores levam uma vida que deve ser muito dura, que não possuem muita escolaridade e que não recebem visita de familiares. Informam que a mulher sente falta do seu filho e que esta relatou certa vez a compra bombom para levar para seu filho e que seu marido não quis leva-la a ele para então entregar.
      Mulher sempre dopada e quando não está deve ser sofrido demais viver naquela situação.
            ACS relatam que é complicado o modo de vida do casal, pois necessitam de um apoio e quase sempre não tem alguém disposto a auxiliar.
           Quando visitam a casa do casal, por medida de segurança, ficam no portão e sempre procuram ver se tem mais alguém na rua – questão de segurança.
            Ficam com pena do casal, mas fazem o que pode para ajudar.

·         Levantamento Equipe III

Família composta por mãe e filha, não conseguem entender o que é passado para elas. Não entendem o tratamento e estão sempre reclamando.
Ambas as moradoras sofrem de um transtorno mental. Fazem uso de medicamentos (Haldol) e remédios para controle da diabetes e hipertensão. A filha da moradora possui hidrocefalia, não possuem parentes próximos a região que residem.
Condições de vida abaixo da média da região; residem em um beco onde possuem dificuldade de acesso.
     

    Inversão dos papeis

            Acs acreditam que pela limitação dessas moradores: sem estudo; casa com apenas um cômodo e sem ventilação.
      São sozinhas e não possuem ninguém para orientá-las; Não sabem escrever e quando necessitam assinar, fazem um “desenho”. A filha quer cuidar da mãe porem necessita de cuidados.
              Entendem que é complicado colocar-se no lugar delas, e que parando para pensar bem na situação é um caso de descaso do Governo e da própria sociedade.
Fazemos o que podemos fazer, tentamos ser claras e objetivas com as informações, mas em certos dias é difícil mesmo para nós que conhecemos o caso lidar com a situação.
Acreditam que o ex-esposo poderia auxiliar o tratamento da filha do casal, porem o mesmo não procura e a filha sente muita a sua falta. Relatam que em certo dia, agendaram uma visita coletiva na casa e que paciente se maquiou tanto para se sentir apresentável e que o exagero foi tanto que não foi nada bom. ACS todas afirmam entender essa situação e agiram como se estivesse ótimo o que foi feito para que a moradora sentir-se na condição de estar recebendo visitas.




REFERÊNCIAS:

BRASIL, Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à saúde. Departamento de atenção básica. O Trabalho do agente comunitário de saúde. Brasília: Ministério da saúde, 2009.




[1] Graduanda em Psicologia pela PUC Minas - Unidade São Gabriel
[2] Graduando em Psicologia pela PUC Minas – Unidade São Gabriel
[3] Doutorado em Psicologia clínica, professor da PUC Minas – Unidade São Gabriel

TERAPIA COMPORTAMENTAL COM GRUPOS

Introdução

O presente trabalho vem apresentar o processo da terapia comportamental em grupos. Iniciaremos apresentando algumas definições teóricas dos conceitos que serão abordados no decorrer do trabalho para facilitar o entendimento e nos disponibilizar base teórica. Trazendo vantagens e desvantagens da terapia em grupo, nos levando a uma reflexão quanto à mesma.

Para melhor entendimento da terapia em grupo, apresentaremos um caso clínico retirado do artigo: Terapia de grupo embasada em psicoterapia analítico funcional como abordagem terapêutica para dor crônica: possibilidades e perspectivas. 

O que é um grupo?

Podemos chamar de grupo o conjunto de pessoas reunidas em busca de um benefício comum, ou de uma tarefa conforme nos define Zimerman citado por coelho:

Para que um agrupamento de pessoas seja considerado um grupo, seja ele terapêutico ou não, é necessário que preencha algumas características básicas, tais como: um grupo não é um mero somatório de indivíduos, pelo contrário, se constitui como uma nova identidade, com leis e mecanismos próprios e específicos; todos os integrantes de um grupo estão reunidos em torno de uma tarefa ou objetivo em comum. (ZIMERMAN apud COELHO, 2011 p.3).

A psicoterapia de grupo tem uma boa eficácia, pois o terapeuta trabalha com várias pessoas ao mesmo tempo, facilitando o processo de aprendizado e/ou correção de comportamentos.
A Psicoterapia de grupo é uma das formas de interação eficiente que oferece condições favoráveis de implementação no grupo terapêutico porque oferece aos indivíduos maior interação na vida em sociedade, um aprende com a experiência do outro. Surgiu da necessidade de aumentar a quantidade de atendimentos psicoterápicos aos indivíduos, facilitando o acesso a psicoterapia devido a custo/eficácia.
Segundo Yalom citado por Coelho "é pelo menos igual à psicoterapia individual em sua capacidade de proporcionar benefícios significativos”. (YALOM apud COELHO, 2011 p.3).
Os indivíduos do grupo precisam ter um sentimento de pertencimento e possuir afinidades com os outros membros do grupo, facilitando a aceitação dos demais e de si mesmo, possibilitando o estabelecimento de amizades e/ou relacionamentos mais profundos com os outros.

A psicoterapia em grupo nos proporciona benefícios:

§     Relação Custo x benefício;
§     Compartilhamento de problemas em comum;
§     Função preventiva;
§     Aprendizado;
§     Produção de experiências emocionais;
§     Aquisição de novos comportamentos sociais;
§     Maior quantidade de feedback;
§     Maior quantidade de soluções
Não deixando de ter algumas dificuldades das quais o terapeuta tem que estar atento para contorná-las e facilitar a interação.
§     Dificuldade de relatar os problemas pessoais na frente de outras pessoas;
§     Dificuldade para fazer a intervenção;
§     Dificuldade na interação do grupo;
Na psicoterapia de grupo o terapeuta procura facilitar a participação e interação dos membros, de modo que eles possam verbalizar livremente seus pensamentos e emoções. No decorrer desse processo empenha-se em manter o foco da conversa, apoiar os participantes que se sentem embaraçados, mediar conflitos e assegurar o cumprimento das regras estabelecidas para que juntos possam alcançar os resultados esperados.
O terapeuta deve ser habilidoso e ter espontaneidade, criatividade, tolerância, flexibilidade e competência, ajustando as intervenções de acordo com as respostas e maturidade do grupo como um todo, evitando trazer respostas para as questões dos membros do grupo, deve permitir que eles examinem as questões e encontrem suas respostas.
O paciente é o sujeito principal do encontro terapêutico, isso posto, o terapeuta na psicoterapia de grupo é um membro do grupo, porém deve guardar sua especificidade, o que é fundamental para que o processo psicoterápico se estabeleça e evolua. Dessa forma, desde o início, precisa delinear claramente seu papel, diferenciando-se dos demais participantes, de modo a preservar a sua função.
Saber trabalhar os conflitos que possam surgir dentro do grupo, auxiliar na percepção e conscientização do mundo interior  e exterior que se encontram envolvidos.

Caso clínico
Os participantes eram três pacientes com disfunção da articulação temporomandibular (ATM) e dor intensa. Eles viveram contextos muito aversivos e mostraram baixa motivação para a vida. Os três tinham em comum uma pobreza de repertórios para lidar com situações de dor; pouca compreensão de eventos internos e uso excessivo de remédios. Eles estavam presos em padrões disfuncionais de esquiva e fuga passiva que prejudicavam a qualidade de vida. As relações interpessoais eram dominadas por frequentes relatos de dor e por atitudes que levaram necessariamente à própria derrota, mas eram justificadas pela dor.
  • Escolha de participantes com experiências semelhantes em relação à dor e suas implicações para o cotidiano;
  • Sessões de uma hora e trinta minutos, uma vez por semana;

As metas gerais do grupo incluem:

1) Explorar implicações e  significados da dor nos contextos em que está mais intenso;
2) Elaboração e treino de habilidades de manejo de dor;
3) Buscar uma redefinição dos papéis sociais dos participantes: relacionamentos, trabalho, família etc., já que estes estão envolvidos em ciclos viciosos que mantém a dor
O grupo apresentado usava também intervenções baseadas na discussão de mudanças na maneira de agir ou pensar do paciente fora da sessão.

Pacientes

Senhora A, solteira, 35 anos, sente dor na ATM e nos olhos. A mandíbula travava regularmente e deslocava-se, aumentando a dor que não respondia a tratamento farmacológico. Foram diagnosticadas uma degeneração óssea avançada, lesão e inflamação dos olhos, com envelhecimento precoce da córnea. Sofreu perdas momentâneas da visão e o prognóstico era de possível cegueira definitiva. Sofria de artrite reumatoide e se submeteu a quimioterapia para tratamento dos olhos. Realizou compressas para o alívio da dor.
Houve uma busca persistente a tratamentos, o que levou a resistência contra propostas de novas intervenções. Tentou suicídio, não fez planos para o futuro e não reconheceu progressos nos tratamentos com diferentes profissionais. A possibilidade de mudança a angustiou. Apesar de reclamar e confrontar verbalmente qualquer sugestão construtiva seguia bem as orientações médicas.
A paciente mostrou revolta em relação à forma em que a vida a tinha tratado (as mortes do irmão e da irmã, as agressões particularmente violentas que ela mesma tinha sofrido, a dor, os tratamentos dolorosos). Quando falava de sua dor, as sensações físicas, incluindo a própria dor, se intensificavam. Ela se queixou de pensamentos obsessivos em relação à morte violenta do irmão e manifestava intensa ansiedade no dia da semana e na hora do dia em que tinha recebido a notícia da morte dele. No ônibus, tinha medo de encontrar com o assassino. Em função de pensamentos relacionados à violência física, tomava banhos compulsivamente.
Em relações interpessoais, a paciente tipicamente confrontava e se opunha. Mostrou dificuldades graves em avaliar e aceitar pontos de vista diferentes dos dela e em ouvir os outros falarem sobre os problemas deles. Ao se expressar, usava de muita ironia e sarcasmo, expondo sua opinião e expressando seus sentimentos às vezes de forma agressiva. Geralmente falava sem considerar as consequências. Não pedia de forma direta a outras pessoas, nem soube se colocar sem imposição. Fazia ligações insistentes e frequentes a profissionais de saúde fora do horário razoável.
A paciente tinha dificuldade em organizar os pensamentos. Os sentimentos pareciam invadi-la num amontoado, emaranhado. Era difícil falar sobre si, seus sentimentos e emoções. Sua dificuldade em confiar nas pessoas era grave. Fugiu de contato físico e não se permitiu ser vulnerável em relações, impedindo assim o desenvolvimento de intimidade. Muitas vezes usava da dor para se esquivar de contatos. As pessoas aceitavam a agressividade dela numa tentativa de protegê-la.
No decorrer dos anos, desenvolveu padrões de esquiva complexos perante situações aversivas. Trabalhava excessivamente e dormia muito pouco. Fez uso frequente de analgésicos, às vezes mudando a dosagem de medicamentos por conta própria. Não se envolvia em eventos sociais ou atividades de lazer. Tinha dificuldade em relaxar e resistência a intervenções terapêuticas com este alvo.
Expressou as seguintes crenças no início do tratamento: nunca conseguiria ser feliz e não tinha nada para oferecer a um possível parceiro. Acreditou não poder controlar os próprios comportamentos. Chorar significava fraqueza. Para ela, demonstrar sentimentos era sinal de descontrole. Sentia-se profundamente culpada por não dar resultados positivos nos tratamentos.
Entre os alvos terapêuticos destacou-se que ela entendesse seus sentimentos, o porquê deles e especialmente que ela aceitasse como legítimos os sentimentos em relação às limitações advindas do seu quadro de saúde. Diretamente ligado a este alvo, também aprendeu a distinguir entre pensamentos, emoções e ações, a detectar situações geradoras de estresse e sua relação com a dor e a desenvolver táticas de manejo (coping). O manejo da dor, da ansiedade e de situações interpessoais que aumentam a dor estava relacionado com estas habilidades.
Trabalhou-se para que ela aprendesse a detectar os comportamentos disfuncionais que dificultam a construção de contatos interpessoais mais proveitosos. Isto incluiu a tomada de consciência do nível, frequência e forma do relato da dor, aprender a expressar sentimentos e desejos de formas mais coerentes com as sensações de dor e com o contexto, abrir-se para contatos e dar oportunidade às pessoas de gostar dela. Outros alvos eram que ela começasse a tomar iniciativas, e pedir ajuda de forma mais aberta.
De acordo com as estratégias da FAP, estes alvos foram trabalhados ao vivo na sessão.
Os primeiros desafios eram relacionados com momentos nos quais ela precisava prestar atenção e ouvir outros componentes do grupo, e teve que enfrentar publicamente a vergonha que sentiu do seu sofrimento. Um exemplo que ilustra suas dificuldades em relação à intimidade apareceu quando ela não deixava a terapeuta saber o endereço dela. Muitas vezes, estimulou as terapeutas a falar como tática de esquiva dos próprios conteúdos. Fez gracinhas sobre as terapeutas, se impôs e confrontou durante as sessões. As terapeutas investiam muito esforço em bloquear as estratégias de esquiva da paciente das atividades propostas para a terapia.
Enquanto no cotidiano as estratégias desafiadoras eram bem-sucedidas, no grupo a paciente foi colocada em cheque pelos outros participantes e começou a confrontar menos. Gradualmente, ela aceitou discutir estratégias para lidar com a dor, começou a participar de todas as sessões terapêuticas e a fazer as tarefas de casa. Outros progressos ocorreram quando ela conseguiu pedir desculpas depois de ter percebido como uma atitude rude na sessão afetou outras participantes, quando aceitou opiniões das terapeutas, quando começou a aproveitar mais as oportunidades de diálogo nas sessões, quando parou de ligar para as terapeutas e quando compartilhou seu ponto de vista em relação às dificuldades de outros componentes do grupo.
A paciente se permitiu ser vulnerável ao falar da atração que sentiu por um homem que ela não pode aproximar, ao permitir que o senhor B a levasse para casa depois da sessão e ao admitir que as sessões eram importantes para ela. Ela chorou no grupo, propôs discussões sobre problemas de relacionamento íntimo na sessão e compartilhou suas dificuldades com os colegas sem desencadear a tensão e as respostas fisiológicas habituais.
Conseguiu discutir situações que a deixavam irritada sem se tornar agressiva ou irônica. Gradualmente, aprendeu a tirar dúvidas, a pedir e a questionar abertamente.
A paciente resolveu interações problemáticas que acontecem no grupo com habilidade, e ligou para os outros participantes com o intuito de reorganizar os horários dos encontros.
Logo ela questionou abertamente (sem sarcasmo ou agressividade) a colaboração no grupo e fez perguntas sobre o relacionamento entre as psicólogas. Ela trouxe presentes para as terapeutas e várias vezes insistiu em pagar a sessão em segredo, apesar de ser combinado que o atendimento seria sem ônus. Um ano depois do início do grupo, registrava altos níveis e frequências de dor, porém nas sessões terapêuticas não emitiu mais comportamentos de dor. Quando estava com dor durante a sessão, podia dizer e continuar a interagir com o grupo sem agressividade, ironia ou sarcasmo.
Dois anos após o início do grupo estas mudanças já tinham afetado seu cotidiano. Tomou iniciativas não relacionadas com dor e se empenhou na resolução de problemas práticos. Começou a discriminar situações durante as quais sentiu medo e entendeu como estas eram relacionadas com a dor, identificando aspectos de situações que desencadeavam sentimentos de raiva e irritabilidade, e fez escolhas em relação às táticas que iria usar. Os comportamentos compulsivos desapareceram, como também os pensamentos intrusivos sobre a morte do irmão. Utilizou respiração diafragmática para o alívio da ansiedade e depois de discussões sobre estratégias de coping na sessão aprendeu também a lidar com a situação de perda temporária da visão.
Após mais um ano, quando o grupo ainda estava se encontrando com intervalos maiores, a senhora A conseguia lidar melhor com problemas novos no seu quadro de saúde e não fazia mais interpretações catastróficas. Hoje enfrenta situações de relacionamento de maneira construtiva. Relata ter significativamente menos conflitos nas suas relações de amizade e profissional, afirmando sentir muito menos medo da dor e menor ansiedade em geral.
A paciente escolhe atividades de lazer melhores e mais diversas, e participa de encontros da igreja e visitas a familiares. Seus relacionamentos interpessoais melhoraram quando ela começou a identificar e entender seus sentimentos e deixou de justificar seus comportamentos de agressão às pessoas em função de seus sentimentos. Falou com médicos com menos agressividade e conseguiu conversar com pessoas importantes para ela, resolvendo situações que antes não enfrentava. Diminuiu a frequência de ligações para os profissionais (cirurgiões dentistas e outros) fora do horário de atendimento e relatou perceber melhoras em relação a tratamentos.
O Senhor B, 33 anos, foi encaminhado pelo cirurgião dentista com disfunção da ATM e dificuldade na fala, quadro clínico sem diagnóstico. Depois de uma sequência de fracassos no nível pessoal, tinha passado a viver com a família da irmã. Na ocasião, tinha abandonado todos seus alvos, inclusive os profissionais. Só almejava melhorar sua fala, meta que também motivou sua entrada no grupo. Tinha vergonha da sua condição e medo da avaliação de outros; sentiu-se desanimado e com medo de fracasso. Em encontros sociais, evitava o contato físico, apesar deste fazê-lo sentir-se bem. Geralmente concordava com as propostas dos outros; não se opôs, por exemplo, a opiniões de profissionais quando não acreditava neles, mas não persistia para a concretização das propostas, nem quando pareceram construtivas.
Na sua família de origem, recebeu críticas de forma muito aversiva e aprendeu que abraço ou outras amostras de aproximação não são atitudes masculinas. Já adulto, foi traído em amizades, nas relações profissionais e no casamento. Várias vezes, em momentos-chave da sua vida, quando tomou decisões importantes e bem-pensadas, confiou muito nas pessoas e teve grandes perdas nos níveis pessoal e financeiro. Tinha aprendido a acreditar que todas suas iniciativas, mesmo as menores, fracassariam sempre, e que sucesso no nível pessoal, profissional ou outros dependia de fatores externos e incontroláveis por ele.
Os alvos elaborados em relação aos seus problemas incluíam voltar a dialogar, a explicar a opinião dele, traçar metas e objetivos, tomar iniciativas, colaborar ativamente e persistir. Além disso, era considerado importante que ele aprendesse a entender seu corpo e respeitar os limites do mesmo.
As terapeutas tiveram inicialmente muita dificuldade em bloquear sua esquiva de sentimentos e sensações decorrentes das atividades e interações sociais no grupo e em levá-lo a fazer tarefas de casa. Quando ele finalmente chegou a refutar opiniões das terapeutas, as mesmas acataram suas colocações e gradualmente ele começou a participar das discussões nas sessões. Um passo importante neste processo foi quando ele chegou a dar uma sugestão a outro membro do grupo e foi bem acolhido. Sua continuidade no grupo foi por si mesmo uma melhora ao vivo, já que ele vinha mantendo, há anos, o hábito de interromper os tratamentos iniciados. Durante as atividades propostas no grupo e em relação às tarefas de casa, ele começou a enfrentar desafios e tomar iniciativas. Um exemplo de sua mudança de atitude ocorreu quando ofereceu caronas às outras participantes e estas aceitaram.
Na vida cotidiana, as mesmas mudanças podem ser ilustradas pelas iniciativas que tomou de pesquisar de forma independente sobre seu problema de saúde, de fazer uma cirurgia que poderia não adiantar, de realizar cursos profissionalizantes e viagens de trabalho e pelo novo habito de participar de reuniões de família, com os quais nunca tinha conseguido lidar até então. Dois anos depois do início do grupo, ele mora sozinho e é independente financeiramente outra vez.
A senhora C, 26 anos, foi encaminhada pelo cirurgião dentista. Sofria de uma inflamação crônica na ATM. Queixava-se de enxaquecas frequentes e de dor persistente no rosto, mais intensa nos finais de semana. Fez uso excessivo de analgésicos e refugiou-se no sono esperando que a dor passasse.
A paciente não conseguiu lidar com situações novas. Tinha dificuldade para pedir e agradecer, e usou comportamentos de dor para fugir de pessoas e situações. Desvalorizou-se por meio da forma superficial utilizada para falar de suas experiências. Por exemplo, conversou com qualquer pessoa sobre seus problemas, banalizando os mesmos. Manipulou situações a seu favor sem se expor ou precisar falar abertamente sobre seus pensamentos.
Não admitia erros e não expressava sua opinião. Reagiu mal a críticas e se comportava em função de agradar o outro. Submetendo-se a manipulação e mentiras conscientes de namorado, família e chefe, não conseguiu recusar pedidos e acabou fazendo o trabalho dos outros e assumindo as responsabilidades deles.
Era desorganizada, tendo perdido documentos e se atrasando frequentemente para o trabalho. Não administrou seu tempo, e perdeu oportunidades e credibilidade dos colegas.
Comprometeu a qualidade de seus trabalhos porque sempre os entregou na última hora. A vivência na família de origem aparentava ter sido caótica. Expressão de desejos e sentimentos era desqualificada. Seu pai servia como modelo de como pressionar os outros de maneiras indiretas e disfarçadas a fazer o que quer sem ter que pedir. Sua mãe era modelo de como encobrir problemas para manter a ilusão de uma família unida. Totalmente submissa ao pai, a mãe tinha sido negligente na educação das filhas.
Em ambientes alcoólicos (tanto pai, namorado e sogra eram alcoólatras), a paciente aprendera que, ao isolar-se, os outros iriam atrás dela, e assim ela obtinha bajulação. Chegou a passar todo seu tempo livre com a sogra porque esta pagou a bebida, poupando dinheiro para o namorado. Em relações interpessoais em geral, aprendeu a fazer com que os outros se sentissem culpados por exigir qualquer coisa dela. Outros a socorreram na desorganização no trabalho e estudo, sem que ela precisasse pedir, e o chefe encobriu seus erros. Sempre que emitia comportamento de dor, as pessoas permitiam que se isolasse.
Acreditou que pedir algo às pessoas ou expor sentimentos era sinal de fraqueza, que não precisava se esforçar, já que, no final, tudo sempre deu certo. Além disso, acreditava que as pessoas não podem mudar e que não teve influência sobre a própria vida. Na sua opinião, os sentimentos determinavam seus comportamentos – assim, precisava controlar os primeiros e não se permitir qualquer sensação.
Os alvos particulares apurados para ela visavam a abordar suas dificuldades em dizer “não”, em pedir e em agradecer. A intenção era que aprendesse a compartilhar responsabilidades em vez de manipular pessoas. Para isto, ela precisava aprender a tomar decisões e a definir prioridades; planejar em função dos próprios alvos; identificar situações que desencadeavam dor e tensão e entender os sinais fisiológicos de ansiedade; permitir-se entrar em contato com eventos privados de maneira não-defensiva e aprender a lidar com as condições do pai.
O grupo naturalmente providenciou contingências nas quais C aprendeu a ouvir os outros participantes e nas quais precisou, por vezes bem explicitamente, dizer “não”. Chegou, nestas condições, também a pedir o que desejava, sem desencadear sensações fisiológicas desagradáveis. O grupo ofereceu condições favoráveis para que se abrisse e dialogasse sobre possíveis mudanças na sua vida. Esta abertura foi uma melhora importante e encontrou reforço natural nas sugestões práticas que os outros participantes deram.
Enquanto geralmente ela puniu o comportamento dos outros, dizendo que tudo era muito difícil, ela acatou o que eles sugeriam, reforçando assim o comportamento deles de oferecer idéias e discutir construtivamente. Do outro lado, seu novo comportamento encontrou reforçamento natural na demonstração de confiança do grupo na sua capacidade de aproveitar as sugestões e resolver seus problemas.
Outra mudança aconteceu ao vivo, quando ela resistiu a um pedido de B para mudar o horário do grupo. Em vez de aceitar e tentar agradar, ela deixou claro os problemas que esta mudança traria para ela. O grupo discutiu o assunto e conseguiu uma solução que agradava a todos. Esta experiência parece ter sido particularmente reforçadora, já que a partir deste momento ela também conseguiu explicitar os próprios valores, preferências e motivos em relação às atividades do grupo. O comportamento de agradecer passou a acontecer naturalmente, no decorrer de trocas entre a paciente e as terapeutas e em relação com os outros participantes. Começou a centralizar sua conversação acerca de assuntos íntimos fora da terapia, na sua amizade com a senhora A, com quem começou a se encontrar para trocar receitas, engajando-se em outras atividades novas.
Depois de dois anos, estes progressos também eram evidentes no cotidiano. Chegou a conversar com pessoas importantes para ela e a resolver problemas dos quais antes se esquivava. Ela pede ajuda quando precisa, e isto inclui um uso adequado dos contatos com profissionais de saúde. Utiliza estratégias para lidar com a dor, diminuindo o consumo de analgésicos. Só usa remédios agora em casos extremo de TPM. Identificou que receber crítica provoca dor e náusea e discrimina situações em que se comporta de forma que a deixa tensa, e conseguiu organizar o ambiente de trabalho e cumprir com obrigações no tempo adequado (isto mexeu no ambiente de trabalho dela), utilizando melhor o tempo em geral.
Aceita o alcoolismo do pai e procura ajudar, aceitando também suas limitações perante essa problemática. Finalmente, ela pode ter influenciado o fato de o namorado ter parado de beber. Três anos após o início do grupo, C continua organizada no trabalho. Já que o chefe não faz mais o trabalho para ela, não precisa mais agradá-lo e o relacionamento de manipulação e cobrança se transformou num relacionamento seguro, no qual ela assume suas responsabilidades.

Conclusão

Ao longo deste trabalho, conseguimos entender que o processo da terapia em grupos tem mais pontos positivos do que negativos. Identificamos a necessidade do terapeuta ter domínio do seu trabalho e o quanto  atento deva esta com este.
Verificamos que o terapeuta faz o uso de estratégias e que estas variam de acordo com o andamento do processo terapêutico. Identificamos a dificuldade para formar um grupo homogêneo, que por mais que os pacientes tenham queixas parecidas, na terapia ocorrem levantamentos individuais, onde o cabe terapeuta atuar de forma que a intervenção seja eficiente para o sujeito quanto para o grupo.
Visto no todo, os progressos dos participantes do grupo incluíram a capacidade de identificar e relatar eventos privados. Após essa inclusão, ganharam autonomia e aprenderam a lidar com seus problemas interpessoais.


Referências


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